Tendências. O que estudantes pensam e querem da escola?

Histórias e percepções de jovens e famílias marcam o Transformar, um dos principais eventos sobre inovação educacional do Brasil

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Por Camila Ploennes

Em sua quarta edição, o Transformar colocou a voz dos estudantes no centro de conversas sobre inovação e prioridades das escolas. O evento, realizado por Inspirare/Porvir, Fundação Lemann e Instituto Península, leva ao público desde 2013 experiências e resultados alcançados por práticas pedagógicas e escolas inovadoras do Brasil e do mundo.

O protagonismo dos jovens que estão na reta final da educação básica foi o que fez a diferença na programação deste ano. No primeiro painel, estudantes do ensino médio apresentaram pesquisas que leram sobre seu próprio mundo e compartilharam experiências em escolas das diferentes regiões do país. No último palco, dados de um estudo inédito realizado com 120 famílias brasileiras jogaram luz sobre caminhos práticos para melhorar a educação no Brasil. Esses dois momentos mostraram como algumas medidas que passam por relações de colaboração entre os atores escolares e pelo uso de novas tecnologias com intencionalidade pedagógica podem ser a base para boas práticas e ideias inovadoras.

Espaço físico

Os cinco jovens do painel de abertura do Transformar contextualizaram, com suas próprias vivências, os dados de pesquisas que leram. Durante essa dinâmica, os estudantes não só enumeraram suas insatisfações com os ambientes das escolas como também sugeriram soluções para melhorar esses espaços.

“Minha escola parece uma prisão, cheia de grades, desde o portão da entrada até os banheiros. Tudo sem vida, sem cor, tudo cinza. De acordo com a pesquisa ‘Nossa Escola em Reconstrução’, a maioria dos jovens acha a estrutura do prédio da sua escola inadequada. O que eles mais querem é tecnologia e áreas verdes”, diz Artur, de 16 anos, que estuda em uma escola da periferia de Canaã dos Carajás, no Pará. A ausência de professores, materiais, laboratórios e assistentes de serviços gerais também está entre as queixas do estudante, que relata ter até mesmo lavado banheiro por falta de quem o fizesse.

A realidade escolar de Derivaldo, de 19 anos, estudante do Colégio Estadual José Lobo, em Goiânia, é um pouco diferente da de Artur, mas com pontos em comum: “A minha escola tem um ambiente legal, mas é superlotada, tem lugares que têm grades e pra mim isso é muito incômodo”. O estudante comentou a pesquisa “Manifesto Voz do Jovem”, realizada pelo Mapa Educação. “Eles ouviram 11.500 jovens, de 9 a 24 anos e o interessante é que ouviram desde a criança que está no ensino fundamental até o cara de 20 anos que precisa trabalhar e faz o período noturno. E no final tem citações dos alunos que participaram”, destacou. Para ele, desenvolver projetos é o caminho para resolver os problemas de sua escola.

Uma situação parecida é vivida no Colégio Estadual do Paraná, em Curitiba, onde estuda Ana Clara, de 14 anos. “No meu colégio, mesmo sendo o maior do Paraná, existe lotação das salas. Querendo ou não isso atrapalha o rendimento nas aulas. Sem contar que como você vai prestar atenção em uma cadeira dura por quatro horas?”, pergunta. “Como muitos devem saber, a gente participou das ocupações dos colégios e eu entendo isso como uma formação pra gente”, completa a estudante, que comentou brevemente a pesquisa, ainda não publicada em português, “Diga-lhes o que queres aprender”, realizada pela Unesco com jovens da América Latina e do Caribe.

Já Débora, de 18 anos, acabou de terminar o ensino médio na rede pública em Cascavel, no Ceará, e acredita que a falta de ventilação prejudica o rendimento dos estudantes de sua escola. Para ela, o envolvimento dos alunos e da comunidade é decisivo nas soluções dos problemas de infraestrutura. “A biblioteca parecia um depósito de livros. Depois que a gente constatou esse problema, a gente transformou, deixou tudo colorido, colocou informação e bancadas”, exemplifica Débora, que também citou a pesquisa “Nossa escola em reconstrução”, realizada pelo Porvir e a Rede de Conhecimento Social, com 132 mil jovens brasileiros de 13 a 21 anos.

Cecília, que estuda em uma escola privada em São Paulo, destacou a pesquisa “Repensar o Ensino Médio”, que entrevistou 1571 jovens de 15 a 19 anos e ainda será publicada pelo movimento Todos pela Educação. Para a estudante, projetos simples que conectam os alunos e o espaço físico da escola têm o potencial de melhorar o ambiente e o engajamento. “Na minha escola tem um projeto de filosofia que anima muito. Todo ano quem está saindo da escola pode escrever em uma parede, deixando sua marca”, conta.

Interações colaborativas

Os jovens também concordaram que as vivências escolares ficam melhores quando sentem que podem colaborar com os professores. Artur comentou um trecho da pesquisa “Manifesto Voz do Jovem” que fala de uma tendência nociva a se pensar que os dois grupos têm interesses diferentes e de como isso impede que eles possam agir em conjunto para formular as atividades, gerando um modelo de ensino desinteressante. “Não tem que ter essa barreira, tem que ter interação”, aponta, destacando que a participação dos alunos nas atividades de ensino foi marcante nas ocupações das escolas entre 2015 e 2016. “O ‘Nossa Escola em Reconstrução’ aponta que 7 em cada 10 alunos queriam que houvesse essa interação maior entre professor e aluno, são jovens do Brasil todo”, completa Derivaldo.

A ideia de interações mais horizontais na sala de aula acabou inspirando Ana a cogitar a carreira de professora. “O professor educa para viver em sociedade com respeito, com fraternidade. Minha professora de história me inspirou muito e eu quero ser professora de história. As aulas dela sempre são muito interativas com os alunos, ela trazia música do nosso cotidiano, trazia rap, às vezes funk, e ela sentava em roda e conversava com a gente de igual pra igual. E a gente mantém essa relação até hoje”, conta.

Propósitos da escola

Ao comentar quais deveriam ser os propósitos da escola, os estudantes compararam resultados de duas pesquisas diferentes para uma mesma questão: se a escola deve proporcionar uma formação ampla que prepara as pessoas para a vida ou se deve formar os jovens para passar nos vestibulares. “O nosso grupo aqui pensa que a escola não é só aquele lugar que passa o currículo que tem que cumprir. A escola é o primeiro ambiente fora de casa que a gente frequenta a vida inteira, aquilo precisa formar a gente pra vida, não só a apertar o botão, obedecer e aprender fórmula pra botar na prova. É interessante que o ‘Nossa Escola em Reconstrução’ fala o contrário disso, diz que os alunos gostam que a escola forme pra prova do Enem, ou do vestibular ou pro mercado de trabalho, o que deixa a gente pensando”, expõe Ana.

Já Cecília aponta que as respostas à pesquisa “Manifesto Voz do Jovem” mostram que os estudantes “esperam que a escola prepare para a carreira e pro vestibular, mas que também fale sobre cidadania, como lidar com preconceito e conviver em sociedade. E é interessante ligar essas duas coisas porque muita gente deixa de estudar e de gostar de estudar porque acha que não tem nenhuma conexão com a vida”.

Como reduzir diferenças

A apresentação de Eliza Erikson, sócia da empresa de investimento social Omidyar Network, sediada no Vale do Silício, também levantou reflexões para os gestores tanto da rede pública quanto da rede privada. “O que pais e alunos brasileiros pensam sobre educação? Fizemos essa pergunta raramente feita para eles”, começou Eliza, ao lançar a pesquisa “Aprendendo com os pais e alunos para melhorar a educação no Brasil”, realizada em parceria com a Fundação Lemann e o Plano CDE.

Para Eliza, os dados dão subsídio ao desenvolvimento de soluções tecnológicas que podem eliminar as barreiras não educacionais existentes no caminho dos estudantes até as oportunidades educacionais, como problemas financeiros, de segurança e de transporte. “Hoje 80% dos estudantes de ensino médio já fazem o dever de casa online, mas o conteúdo vem de aulas no Youtube de qualidade duvidosa… o que seria possível se nós nos concentrássemos nesses aspectos da tecnologia na educação no Brasil e desenvolvêssemos produtos e serviços para alunos reais, atendendo os desejos de estudantes e pais?”, propõe.

Segundo Eliza, com a entrada dos dispositivos móveis nas escolas e de iniciativas de conexão privada e pública, o foco dos projetos de tecnologia para a educação deve ser proporcionar o engajamento durante o processo de aprendizagem, inclusive conectando os pais com as escolas para que a comunicação não dependa de bilhetes esporádicos ou reuniões presenciais. “Ao ouvirmos pais e alunos, esperamos ter uma nova geração de produtos e serviços que permitam que os estudantes usem a tecnologia acessando conteúdos que sejam educacionais, interativos, desafiadores e personalizados. Quando isso acontecer, eles terão uma possibilidade muito maior de desenvolver a sua educação”, afirma.

Para a sócia da Omidyar, essa abordagem também permitirá que os estudantes tenham acesso aos recursos no local que as famílias consideram mais seguro: sua própria casa. “Essa tecnologia atenderia às preocupações de pais que receiam as distrações que a internet proporciona aos filhos e os programas ajudariam o estudante a desenvolver o senso crítico e a aprender com seus próprios erros, em vez de simplesmente procurarem respostas prontas para suas perguntas”, acredita Eliza.

“Será que resolveremos todos os problemas da educação no Brasil? Não, mas essa atitude pode gerar avanços, com melhores notas, engajamento e milhões de pais aliados, porque eles estão preocupados com a educação de seus filhos”, conclui.

Foto: Divulgação

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