Modelo de gestão defasado emperra compras de tecnologias educacionais

 

Segunda edição do Conecte-C, evento promovido pelo Centro de Inovação para a Educação Brasileira, mostra como o setor precisa de novas regras para decolar

por Vinícius de Oliveira 30 de junho de 2016

PORVIR

O mais recente encontro Conecte-C, promovido pelo CIEB (Centro de Inovação para a Educação Brasileira), em São Paulo, na última terça-feira (28), mostrou como a existência de mecanismos de compra anacrônicos e uma falta de formação adequada do poder público para lidar com a compra de soluções de base tecnológica impedem o avanço mais rápido do uso de recursos digitais na educação pública brasileira.

“Existe o fator humano, que precisa de uma mudança de mentalidade e de maior capacidade, porque nem todo mundo sabe o que e como comprar, e também o relacionado ao ambiente de negócios, já que os mecanismos de compra não foram desenvolvidos para esse tipo de produto”, diz Lucia Dellagnelo coordenadora do CIEB.

1º Conecte-C: Secretarias são transatlânticos cheios de alunos, diz gestora do Rio

Nesta segunda edição, o Conecte-C reuniu Rafael Parente, PhD em educação pela NYU, fundador da Aondê Educacional (Conecturma) e diretor-fundador do LABi(Laboratório de Inovação Educacional), Olavo Nogueira Filho, ex-coordenador do programa de Novas Tecnologias, Novas Possibilidades da Secretaria de Educação de São Paulo, Antonio Moraes, diretor de educação da Microsoft Brasil, e Robson Lisboa, um dos idealizadores da SmartLab, plataforma digital que também ajuda a projetar espaços escolares modernos. Com o tema “O mercado de Edtech no Brasil: David e Golias?”, a conversa capitaneada por representantes de grandes nomes do setor, expôs desafios de quem lida com compra e venda de tecnologia e trouxe recomendações sobre como pequenos empreendedores podem encontrar um canal de diálogo com o setor público.

Rafael Parente, que já esteve no poder público como subsecretário de novas tecnologias educacionais da Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro e hoje está do lado de quem vende soluções digitais, disse que empresas grandes de fato têm maior facilidade para tratar com secretários e com o alto escalão dos governos, mas startups também podem ter sua chance, desde que se preparem.

“A gente pedia para que empresas trouxessem exemplos, mostrassem indicadores ou alguma pesquisa sobre o impacto na aprendizagem, por mais que a gente saiba que isso seja muito difícil. Elas demoram para ficar prontas, custam muito caro, mas a gente pedia para ver algum indício, alguma correlação que as empresas pudessem nos mostrar. Onde vocês já estão? Tem recomendação?”. Em seguida, segundo Parente, era feita uma pesquisa de mercado para entender os preços. Se fosse interessante, a proposta era levada à secretária e, dependendo do volume da compra, até para o prefeito.

Mas e se todo mundo resolver procurar a secretaria, como fica a situação do gestor? Pelo modelo de compra atual, a situação também é difícil para o administrador público. “Tem muitas coisas acontecendo e vindo de todos os lados. A gente não consegue criar a política do que a gente quer para agora e para daqui a pouco. A gente não dá conta. É como o processo pode ser montado de um jeito mais interessante, e não picado. Senão, é um monte de gente batendo na porta e eu não consigo costurar o que é oferecido com a política que eu tenho”, disse Renata Simões, diretora do Centro de Estudos e Tecnologia, da Secretaria da Educação de SP, presente na plateia. Renata avalia que o concurso Pitch.gov, usado pela primeira vez no ano passado, pode ser visto como solução, uma vez que o governo declara de antemão quais são suas necessidades específicas que podem ser atendidas por pelas startups.

Enquanto esse novo plano não chega, em muitos casos nem mesmo ofertas gratuitas são absorvidas pelas secretarias, como contou Antonio Moraes, da Microsoft, que abriu a plataforma Office 365 a centenas de milhares de alunos de São Paulo. A iniciativa não é replicada com maior facilidade em outros lugares porque, mais uma vez, os processos de compra até conseguem atender a compra de livros didáticos, mas não têm a flexibilidade para tecnologia.

Para Robson Lisboa, da Smartlab, a solução para o pequeno empreendedor pode vir de um pacote de soluções. A plataforma do grupo Santillana deve chegar à rede de Salvador (BA) em breve, levando aplicativos nacionais e estrangeiros desenvolvidos por empresas de diferentes.

Apoio privado

Olavo Nogueira, ex-integrante da secretaria de São Paulo, disse que a busca de investimento privado pode ser uma opção tanto para empreendedores quanto para as secretarias, especialmente em momentos de crise. Ele cita como exemplo a criação do Currículo+, plataforma de objetos digitais de aprendizagem usada na rede paulista.

“Ainda que possa parecer maluquice para vocês uma restrição orçamentária em uma secretaria com orçamento de R$ 28 bilhões, recorremos à iniciativa privada para encontrar parceiros que pudessem nos ajudar na construção e na implementação”, disse.

Entretanto, Nogueira coloca como desafio para secretarias o desenvolvimento de equipes para administrar tecnologia e preparar o terreno para absorção das plataformas digitais, afinal, “parceiro não é para sempre”.