Sua escola é empreendedora?

Sua escola, seja ela pública ou privada, sempre foi desafiada a oferecer educação de qualidade com a melhor utilização dos recursos disponíveis. Portanto, tal qual em uma empresa, você certamente busca eficiência em seus processos para entregar os melhores serviços educacionais possíveis. Com o cenário cada vez mais competitivo e com as novas tecnologias digitais disponíveis, o mercado educacional passa por um momento desafiador que pode ser encarado como ‘tempos difíceis’ para algumas escolas, mas para outras, esse momento é de oportunidades. Essas são as escolas empreendedoras. Sua escola é empreendedora?

Vamos olhar pela ótica do cliente: a família. Ela contrata a escola, pública ou privada, para ajudá-la a desenvolver as competências, habilidades e atitudes dos seus filhos. No entanto, as necessidades de aprendizagem das crianças se tornam maiores a cada dia em métodos, tecnologia e conteúdos. A oferta de serviços educacionais que a maioria das escolas oferece não cobre essa necessidade toda e, por isso, as famílias recorrem a outros fornecedores para complementar a formação de seus filhos. Em outras palavras, a demanda de aprendizado é maior do que a oferta que a escola faz. Como a demanda tem que ser atendida, uma série de outros fornecedores surge, como escolas de idiomas, de robótica, de programação, de esportes, reforço de matemática (e outras disciplinas), dentre muitas outras ofertas disponíveis. Todas elas poderiam ser feitas pela própria escola, pois família sempre a considera como a principal fornecedora da necessidade de formação dos filhos.

Para atender as crescentes necessidades das famílias, a escola precisa cada vez mais oferecer novas experiências de aprendizado e atender seu público-alvo da melhor forma possível. Para isso, precisa desenvolver suas habilidades empreendedoras, pois cada nova oferta deve ser encarada como um novo empreendimento. Algumas escolas fazem ofertas de formação complementar, geralmente no contraturno, mas as oportunidades são maiores ainda.

As necessidades das famílias cresceram, pois as crianças e adolescentes, inseridos em uma sociedade que mudou e muda muito, precisam estar cada vez mais preparados, não somente para o mercado de trabalho, mas também para a vida.

Desenvolver competências novas nas crianças pode ser feito pela escola ou por empresas fora da escola, mas existem ainda necessidades complementares que somente a escola pode atender, como a diminuição do deslocamento excessivo entre escola e residência, curso de inglês e todas as outras atividades nas quais a criança estiver matriculada. Com um número menor de fornecedores, o custo para a família pode cair, pelo menor deslocamento, pelo número menor de transações/pagamentos, dentre outros. Comparativamente a fornecedores externos de cursos, a escola pode também cobrar um valor mais atrativo das famílias, pois com acesso privilegiado aos clientes, o custo com marketing é sempre menor que seus concorrentes. Os pais e mães, com menos deslocamento para levar e trazer seus filhos, também podem usar o tempo economizado para outras atividades, uma vez que este, o tempo, é um recurso cada vez mais escasso e valioso.

A escola, por outro lado, possui recursos ociosos ou não utilizados ao seu potencial máximo. Um exemplo disso são as salas de aula utilizadas somente em determinados períodos nos quais as aulas acontecem, geralmente matutinos. Quando vemos uma sala de aula vazia, sem alunos, independente do horário, isso significa que aquele ativo está ocioso, sem utilização, e portanto, poderia estar rendendo mais frutos, tanto de aprendizado para crianças, quanto de fluxo de receita para a escola. Geralmente, as escolas possuem ainda outros recursos não utilizados no seu potencial máximo, como energia elétrica disponível, ambientação, iluminação, equipe de seguranças, internet, mobília, projetores, computadores, laboratórios,  equipamentos como instrumentos musicais, dentre outros. Tudo disponível ali naquele prédio para que alguém utilize de forma a gerar valor para a própria escola e para outras pessoas que precisam aprender cada vez mais. Hoje em dia, do ponto de vista econômico, não se pode admitir a existência de recursos ociosos.

Para atender as demandas dos pais que precisam de uma escola com mais oferta de formação, a escola precisa aumentar sua capacidade empreendedora e isso não é trivial. A escola precisa se planejar financeiramente, operacionalmente, alocar professores existentes, se comprometer com novos professores, com novos materiais, com uma dinâmica de fluxo de alunos diferente, dentre outras questões que devem ser equacionadas. Ser empreendedora significa sair da zona de conforto da escola e nada como uma crise para ajudar. Os momentos de maior dificuldade econômica exigem que escolas se reinventem, trazendo novas ofertas para as famílias, atendendo às novas necessidades da sociedade digital e conectada.

Muitas escolas podem aproveitar as salas de aula e os ativos que possuem para ofertar oportunidades de desenvolvimento de competências para uma comunidade maior que somente os seus próprios alunos. Por exemplo, uma escola pode convidar os pais dos alunos, que é um público razoavelmente conhecido, para fazerem cursos de idiomas. A escola pode também pegar parte dos ativos que possui e ofertar para essa comunidade conhecida para que se utilize os espaços, a um custo baixo, em suas atividades comunitárias, de empreendedorismo, de cunho social e de filantropia, dentre outras.

A escola empreendedora deve enxergar as múltiplas possibilidades de utilização dos ativos e dos recursos que dispõe de forma profissional, mas também sob o aspecto social, pois a escola é um dos expoentes maiores da vida coletiva e da convivência.

Com tantas oportunidades, quais seriam então as características de uma escola empreendedora?

Quais são as características que você deve desenvolver para que sua escola seja empreendedora?

Criatividade

A primeira característica da escola empreendedora é que ela é criativa e não tem nenhum medo ou vergonha de ser assim. Analisar a situação atual e pensar novas possibilidades, conectando inteligentemente com recursos existentes, tudo isso faz parte de uma mente criativa. Uma escola que tem o pensamento criativo observa cuidadosamente o seu estado atual, os ativos que possui, o potencial dos públicos que estão em volta e, de forma bem estruturada, alinha reuniões, processos, encontros dos líderes da escola para, de forma organizada, criar novas maneiras de utilização dos espaços educativos e dos recursos.

Segundo Sêneca, filósofo europeu, se o homem não sabe a que porto se dirige, nenhum vento lhe será favorável. Para que uma escola seja realmente criativa eu acrescentaria mais um ponto importante a esta frase: não basta apenas saber a direção que a escola quer ir, é importante também saber de onde ela está partindo.

Uma escola que não possui e não alimenta a criatividade para suas próprias atividades e suas próprias ofertas, enfrenta sérios desafios para desenvolver essa habilidade em seus  alunos.  Portanto, em ser criativa, uma escola mostra para todos os públicos que a frequentam:  alunos, pais, professores, funcionários, governo e outros que ela não somente ensina a criatividade, mas que ela vive a criatividade.

Risco

Além de criatividade, um outro fator importante para a escola é aprender a lidar com o risco.  A atividade empreendedora é uma operação de risco e isto deve ser encarado com muita naturalidade.  Todos os dias as escolas lidam com o risco pelo simples fato de abrirem suas portas para as famílias.  Todos tentamos operar nossas vidas e empresas num campo mais próximo da segurança, mas, para alcançarmos resultados superiores, temos que arriscar um pouco na zona onde a segurança não está tão presente.  Entender o risco de forma madura, percebendo que ele é inevitável e posicionando o nível de risco que a escola está disposta  a se expor, os líderes da escola poderão criar possibilidades  de uso dos ativos da escola de forma mais assertiva.

Foco no Negócio

Outra característica importante da escola empreendedora é o foco no negócio.  O fato de ser da educação, muitas vezes, faz com que a escola coloque um foco muito grande na função puramente social da educação, negligenciando a questão do negócio.  Para ser uma escola empreendedora ela tem que entender que as ofertas devem fazer sentido do ponto de vista do negócio e, fazer sentido, significa que as ofertas são autossustentáveis e  possuem mecanismos financeiros de alavancagem.

Isso não indica também que a escola não possa fazer alguns projetos cujo resultado financeiro seja negativo.  O importante nesse caso é a escola fazer um belo planejamento de portfólio de ofertas onde possua a maioria de projetos autossustentáveis financeiramente e alguns projetos sociais onde não haja autossustentabilidade.  Ao olhar tudo isso de maneira ampla, somando-se todos os lucros com todas as despesas, o saldo precisa ser positivo, e isso mostrará que a escola teve foco nos negócios e um bom balanceamento do portfólio.

Determinação

Uma outra habilidade importante para a escola empreendedora é a determinação. Muitas  ofertas poderão parecer sem sentido para algumas pessoas, mas a escola, com determinação e convicção, deverá prosseguir confiante até o cumprimento do plano empreendedor ao qual se propôs. Com determinação a escola consegue vencer a maioria das barreiras que aparece no caminho, até o alvo onde os bons resultados estão.

A determinação também vai ajudar a escola a não enxergar tão seriamente as dificuldades que certamente terá pela frente. Algumas dificuldades devem ser consideradas, principalmente, se oferecerem risco severo para a saúde financeira ou para as pessoas que estão envolvidas nas novas ofertas da instituição, inclusive alunos.  Essas dificuldades devem ser equacionadas e levadas em consideração sempre.  Todas as outras adversidades, incertezas e medos devem ser vencidos pela determinação da escola.

Trabalho em equipe

Uma escola empreendedora tem uma equipe de pessoas com conhecimentos e atitudes orientados ao objetivo da instituição. Trabalhar bem em equipe é fundamental para alcançar resultados relevantes para a escola e para os alunos. Caso os funcionários e a equipe de liderança não possuam postura empreendedora ideal para alavancar a escola, não desista: seja determinado.  Encontre pessoas, dentro e fora da instituição, para te ajudar, afinal a sobrevivência da escola é que está em jogo.

Identifique quem podem te ajudar nesse processo, contrate empresas externas oufuncionários novos para executar o plano empreendedor da sua escola.

Confiança

Tenha uma atitude confiante em relação a sua escola como uma instituição empreendedora. Mostre para todos que você acredita no potencial da escola, no potencial das ofertas que está montando e no potencial do seu público alvo.

Promoção da oferta

Trabalhe de forma profissional em relação ao marketing e vendas das ofertas que você irá criar.  Lembre-se que não adianta criar a melhor oferta do mundo se o seu público-alvo não sabe que ela existe.  A escola é habituada a realizar eventos, como uma festa junina, por exemplo, e sabe que, sem comunicar bem a festa, por mais enfeitada que esteja, estando vazia, não se pode considerá-la uma festa de sucesso. É para o público que se cria uma oferta e, para este público a comunicação e venda adequada da oferta devem ser feitas.

Relacionamento

Uma das competências mais importantes para uma escola empreendedora é a capacidade de criar relacionamentos duradouros, tanto com indivíduos, clientes, fornecedores ou reguladores, como com empresas parceiras que vão ajudar a escola a ser mais empreendedora com o mínimo de risco. A construção de relacionamentos fortes com parceiros que efetivamente ajudam sua escola a trilhar caminhos mais seguros para que as melhores ofertas sejam feitas a seus clientes é fundamental no ambiente de mercado duro e de alta competitividade no qual vivemos atualmente.

Visão estratégica

Por fim, o item que, de certa forma, envolve todos os anteriores, mas que também é fundamental para o sucesso de uma escola empreendedora é a estratégia da instituição. Se o empreendedorismo não estiver claramente declarado na estratégia da escola, fica difícil  de fazer com que os funcionários atuem de forma empreendedora.  A estratégia deve guiar toda atividade que acontece dentro da escola e, por isso, o empreendedorismo deve estar presente na estratégia da instituição. Enquanto estratégia, o empreendedorismo deve ser comunicado amplamente para que se torne uma visão compartilhada, onde todos conhecem e atuam positivamente.

É difícil prevermos como será exatamente o aprendizado no futuro, como será o formato da escola, que equipe será necessária, que tecnologias e processos serão usados para que as crianças e os adultos aprendam mais efetivamente e com prazer.

O que podemos considerar  é que as mudanças na sociedade que a torna mais complexa, tecnológica e conectada são as mesmas mudanças que permitem com que a escola se torne mais empreendedora e oferte mais valor para seus clientes.

Podemos considerar também que, as escolas que conseguirem, se transformar ao longo do tempo, se adaptar mais rapidamente às mudanças na sociedade e souberem tirar proveito das oportunidades que a vida cotidiana moderna imprime nas pessoas, essas sim serão as instituições que irão sobreviver a tempos ainda mais duros e competitivos. Portanto, sua escola terá muito mais chance de trilhar um caminho de sucesso se for empreendedora.

A sua escola é empreendedora?


Robson Lisboa, mestre em Educação e Tecnologia e um dos idealizadores
do projeto educacional tecnológico SmartLab.