Inclusão social, pela inclusão digital, de professores!

É impressionante como a sociedade tem se transformado, principalmente ao longo da última década, na direção da vida digital e conectada. Cada vez mais vemos pessoas usando as tecnologias móveis, a Internet e a conectividade para se comunicarem, para se divertirem e para encontrarem informação relevante para suas vidas. Parece que a transformação se torna mais intensa a cada ano e em velocidades cada vez maiores.

Tais transformações impactam o ambiente social da escola fortemente e um bom exemplo disso é que há pouco tempo havia um debate no entorno da inclusão social de alunos pela inclusão digital.  Não se comentava a respeito de incluir professores, pois eles não faziam parte do grupo de excluídos. Mas o que acontece hoje com professores que usam pouco as tecnologias presentes nas escolas, tanto para o ensino quanto para a gestão escolar, e na sociedade como um todo? Professores que não usam tecnologia correm o risco de serem excluídos ou de se sentirem excluídos? É consenso geral que a tecnologia não vai substituir o professor, mas também muitos concordam que os professores que não gostam de usar tecnologia serão substituídos por aqueles que gostam. Com isso, um processo de exclusão pode sim acontecer. Seria a exclusão social pelo fato do professor não adotar algumas tecnologias, principalmente as de comunicação, cada vez mais usadas em todos os contextos sociais hoje.

Como evitar essa exclusão?

Não existe muito o que fazer, temos que capacitar os professores a entenderem e a usarem as novas tecnologias que adentram o espaço social da escola. Essa capacitação não pode ser estanque. Isso significa que se colocarmos os professores em uma sala por um mês e explicarmos os fenômenos sociais ligados às novas tecnologias e como usar essas tecnologias, de forma que ele se sentisse minimamente incluído nesse processo de comunicação social, em alguns meses ele já estaria desatualizado, pois a evolução tecnológica é muito mais rápida do que a capacidade dos gestores de formar seus professores. Por isso, estamos diante de uma mudança na forma como os professores aprendem ferramentas educacionais, principalmente as digitais. Essa mudança impacta os orçamentos, a gestão da formação dos docentes, o ciclo de formação e até o seu ciclo de vida profissional.

Os professores precisam ser formados continuamente, em processos presenciais e virtuais de aprendizagem. Além da formação, os professores precisam de suporte também contínuo, de forma que possam receber apoio no momento em que buscam aprender e expandir suas capacidades de uso de novos métodos e novas tecnologias.

No contexto da formação profissional formal, isso tudo é uma quebra de paradigma para a maioria dos professores, mas não em processos de aprendizado informais, onde o formato digital, contínuo e fluído já acontece, quase que naturalmente. Um bom exemplo disso é quando queremos aprender a fazer uma iguaria nova na cozinha. Por mais que a maioria das pessoas tenha livros de receita em casa, ainda assim recorre à Internet e, mais recentemente, a vídeos que ajudam a mostrar o passo a passo do preparo. As pessoas buscam na web ajuda até para aprender a trocar o pneu do carro e, acredite, elas encontram e aprendem. Se na vida cotidiana, esse movimento de aprender via canais digitais, principalmente a Internet, se torna o mais comum, porque com os professores, em seu exercício profissional, isso não aconteceria?

Hoje é possível encontrar um número muito grande de recursos de aprendizado profissional para várias carreiras, inclusive a de professores. Naturalmente que a confiabilidade dos recursos e a garantia da disponibilidade é um problema que deve ser equacionado, mas o fenômeno e a mudança estão postos e não mostram sinais de que vão mudar de direção ou de intensidade.

A pressão por aprender novos recursos tecnológicos aumenta a cada dia, pois, o que acontece na escola hoje é que os alunos entram com uma liberdade de acesso à informações e ao conhecimento presentes na Internet, por exemplo, e os usam sem medo e sem preconceito. Crianças e adolescentes se lançam também no uso de dispositivos (celulares, tablets, notebooks, etc) sem o medo de errar, comum a adultos. A falta de cuidado no uso de tecnologia e no acesso aos conteúdos pode gerar uma série de problemas, por isso essas crianças devem ser educadas para o uso cidadão destas ferramentas. Ainda assim, o uso cada vez mais frequente é um fenômeno aparentemente sem volta.

Existe uma clara diferença entre a forma como os professores aprenderam a se apropriar do conhecimento (pesquisa em fontes mais seguras, estudo, avaliação e certificação) e a forma como essas novas gerações estão desenvolvendo o seu próprio modelo de apropriação.  Essa diferença cria uma barreira, uma outra separação entre alunos e professores, com consequente isolamento, reduzindo a motivação para a troca e o diálogo tão importantes para que o aprendizado aconteça. O professor que não usa tecnologia pode estar perdendo oportunidades enormes e ricas de aprendizado e de inter-relacionamento com seus alunos, através destes novos meios. Vale lembrar que muitos professores não usam tecnologia cotidianamente na escola por vários fatores e não somente porque eles não querem. Falta de conexão, de equipamento, de treinamento, de conteúdo, dentre outros, são fatores comuns para que alguns destes profissionais não usem. Alguns professores podem estar, portanto, em processo de exclusão, inclusive social, por não conseguir usar os protocolos e ferramentas de comunicação do grupo.

Muitos não estão aprendendo porque têm dificuldades de utilizar e compreender essas novas tecnologias e esses novos fenômenos de aprendizado, até porque todo este conjunto de aparatos e sistemas muda muito frequentemente.  Assim, é desumano exigir que o professor, por si só, esteja absolutamente atualizado sempre, pois isso seria praticamente uma tarefa inalcançável, principalmente sem formação e sem suporte.

Promover formalmente o processo de inclusão digital do professor evita tal exclusão social dos grupos de aprendizes que existe na escola e fora da escola.  Tal inclusão digital se dá através de formação e suporte e, cada vez mais, acontece dentro, mas também fora das paredes da escola. Como aprendemos que o contato com professor acontece eminentemente dentro da escola, até por questões trabalhistas e legais, existe um campo de debate a ser feito a respeito do processo de aprendizagem fora deste domínio. Quais seriam então os exercícios de reflexão e ação que professores, gestores e provedores de soluções educacionais podem fazer imediatamente para trabalhar as questões levantadas aqui e melhor promover a inclusão digital dos educadores?

Vejamos alguns…

Todos somos aprendizes

Talvez a questão mais fundamental deste debate já esteja sendo feito por professores no Brasil e no mundo: todos somos aprendizes! A maioria dos professores já entende e assume na prática que também é um aprendiz, dentro e fora da sala de aula.

É importante que o professor que ainda não entendeu isso elimine definitivamente o papel duro e difícil de ser aquele que detém o conhecimento com a função principal na escola de transferí-lo para os que não possuem.  Uma vez que essa questão esteja determinantemente resolvida abre-se espaço para os próximos pontos.

Debruçar

É impossível acontecer a apropriação do conhecimento sem o debruçar.  Professores devem considerar que, para se apropriar de novas formas de comunicação e aprendizado desenvolvidas pelas mudanças da sociedade, ele terá que dedicar tempo, dedicação e concentração.  Na realidade requer também uma paixão pelo novo, pela flexibilidade e pela adaptação contínua. Portanto, não existe inclusão sem o debruçar.

Suporte e apoio

Não existe inclusão sem apoio e suporte para o professor, independente do grau de familiaridade com a tecnologia e com os novos processos de aprendizado que ele tenha. A escola, os governantes, os tomadores de decisão e os provedores de soluções devem apoiar o professor e trazer várias formatos/modelos de suporte para que ele se sinta em condições de trabalhar e fazer uso da tecnologia. Ele precisa de apoio, tanto para ter acesso à internet e aos conteúdos quanto acesso a suporte para ajudar no momento em que se predispõe a abraçar as mudanças já no exercício da função em sala de aula.  Alguns professores não abraçaram totalmente as mudanças porque ao tentar se lançar no desafio de usar novas tecnologias ou novas metodologias de ensino se viram sozinhos em uma sala com trinta ou quarenta alunos, sem a mínima condição de enfrentar as primeiras barreiras.  Além disso, também os professores já estão ocupadíssimos com um currículo relevante a cumprir, com a necessidade de acompanhar de perto alunos com mais dificuldade, com tarefas administrativas, com eventos da escola e com problemas disciplinares dentro da sala de aula. Como exigir deste profissional ainda mais dedicação? Esse profissional precisa de todo apoio e é necessário que tomadores de decisão e provedores de soluções antecipem as necessidades deles e tragam informações e conhecimento de forma fácil de se apropriar. Portanto dar apoio, informações e conhecimento para professores é uma condição fundamental para que estes profissionais se apropriem das novas oportunidades de aprendizado que as tecnologias e as novas metodologias oferecem.

Façam a vida do professor menos dura

Todos sabemos como é a vida de professor. Ele não tem uma vida fácil! Trabalha nos finais de semana e, durante a semana, a noite, prepara provas, planos de ensino, corrige exercícios, estuda, resolve problemas administrativos, dentre outros. É uma carga de trabalho enorme.  Para ajudar esse profissional a lidar com as mudanças da sociedade digital é importante trabalharmos para que sua vida seja facilitada. O professor precisa ganhar tempo para se debruçar e aprender novas metodologias e novas tecnologias.  Por isso, qualquer solução que seja colocada para professores, hoje, deve tornar o seu dia menos pesado, deve trazer relatórios inteligentes automaticamente, corrigir tarefas de casa automaticamente e deve revelar alunos que possuem maior dificuldade e os que possuem desempenho extraordinário, também automaticamente.  Só assim conseguiremos trazer os profissionais da educação para o nível de aprendizado que tais transformações da sociedade exigem.

Acesso

O professor deve ter amplo acesso, não somente à internet e ao conhecimento contido nela, mas também às ferramentas de aprendizado, como plataformas online, aplicativos, jogos educacionais, ferramentas digitais de avaliação de desempenho dos alunos e metodologias.  Quando uma escola adota uma determinada metodologia ou tecnologia geralmente também provê algum treinamento para esses profissionais. No entanto as possibilidades e as múltiplas tecnologias disponíveis, inclusive nos smartphones dos alunos e dos professores, demanda que estes profissionais estejam atualizados constantemente. O acesso à internet necessita de uma infraestrutura e, claro, isso significa investimento por parte da escola que deverá ser feito com mais frequência. Esse é um caminho sem volta. O acesso às plataformas tecnológicas, como jogos, portais de aprendizagem, de conteúdo, etc deve ser oferecido aos professores de forma ampla para que ele possa experimentar várias opções e escolher aquela que mais o ajudará a vencer os desafios dentro da sala de aula.

Formação

É necessário entregar uma formação presencial e virtual para o professor na quantidade necessária para ajudá-lo em seus desafios na escola, no tempo que ele precisa e no formato que ele preferir.  Com as novas tecnologias, principalmente as de vídeo online, professores podem ser servidos continuamente com conteúdos e metodologias.  Os conteúdos precisam ser encantadores para que o professor aprenda também de forma prazerosa.  As certificações possuem um papel importante nesse processo, porque motivam muitos a continuar aprendendo, mesmo depois do diploma na universidade. Agora que todos entendemos que o aprendizado continua para toda vida, outra questão que deve ser endereçada cuidadosamente é a da remuneração dos professores, principalmente em relação aos processos de formação fora do horário de trabalho.  Isso vai acontecer com mais frequência e os professores vão encarar, cada vez mais, esse aprendizado como uma oportunidade de tornar a experiência em sala de aula encantadora para seus alunos e para si também. A certificação e a descoberta contínua são também elementos motivadores e, provavelmente, os conflitos relacionados ao aprendizado fora do horário de trabalho devem se diluir ao longo do tempo.

O processo de transformação da forma como as pessoas aprendem vai continuar e cabe a cada um de nós decidir se vamos fazer parte ativa desse processo ou se vamos ser passivos, tentando agarrar o que for possível ao longo do caminho. É uma escolha legítima de cada um, com consequências diferentes. Se fazemos parte do processo de transformação, fica mais fácil entender o que está acontecendo e quais serão os próximos movimentos.  Se somos somente audiência e usuários passivos, ficamos na retaguarda do processo e o esforço de aprendizado, paradoxalmente, pode ser maior.

Vale a pena, portanto, fazer parte do processo de transformação. Como o processo de aprendizado vai mudar muito ainda e como é difícil prever o que vai acontecer com a sociedade conectada, tecnológica e massivamente digital, o acompanhamento de perto por parte dos professores é fundamental para que ele não se exclua dos grupos de aprendizagem, tanto de alunos quanto de colegas. Já somos uma grande aldeia global de aprendizes e sempre teremos a oportunidade de estender as nossas mãos tanto para ajudar outros a aprender quanto para receber apoio para que nós mesmos possamos transformar nossas habilidades, competências e atitudes, transformando também nosso futuro.


Robson Lisboa, mestre em Educação e Tecnologia e um dos idealizadores
do projeto educacional tecnológico SmartLab.